Transparência, oposição e política pública: os desafios do segundo mandato de Jamir Calili
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Em uma legislatura marcada por renovação expressiva na Câmara Municipal de Governador Valadares, o vereador Jamir Calili atravessa o segundo mandato em posição diferente da que ocupava anteriormente. Hoje ele se define como oposição independente, com foco na fiscalização técnica, na cobrança institucional e na defesa de políticas públicas estruturadas.
A entrevista começa por um dos temas mais sensíveis da cidade nos últimos meses:
Viaduto do Filadélfia: a cobrança por transparência
Para Jamir Calili, a discussão sobre o viaduto do Filadélfia ultrapassou o campo estrutural e passou a ser, sobretudo, institucional.
“O principal problema hoje é a falta de informação. A população não sabe qual é o projeto, não sabe qual é o cronograma e não sabe qual é o plano definitivo para aquela estrutura.”
Segundo ele, após a interdição do viaduto, seu gabinete solicitou formalmente o laudo técnico para que a Câmara tivesse base documental.
“Eu pedi o laudo porque o papel do vereador é fiscalizar.
Não é aceitar versão informal.
Esse laudo demorou.
Depois, em audiência pública, foi apresentado outro parecer dizendo que o viaduto não suporta cargas. Ali ficou acordado que em três meses teríamos projeto e encaminhamento de obra.”
O prazo venceu sem que, segundo ele, houvesse apresentação formal de projeto ou cronograma à Câmara.
“Não há projeto apresentado. Não há licitação publicada. Não há previsão oficial. Isso gera insegurança para comerciantes, moradores e para a cidade inteira.”
O vereador afirma que, se necessário, pode recorrer a instrumentos legais para assegurar o direito de fiscalização do Legislativo.
“Fiscalizar não é afrontar. É cumprir o dever constitucional do Legislativo.”
Atualização
Após a realização desta entrevista, a Prefeitura de Governador Valadares anunciou, por meio de publicação oficial em seu perfil no Instagram, que divulgará nesta sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026, o cronograma das obras de recuperação do viaduto do Filadélfia. No comunicado, a administração municipal informou que os trabalhos terão duração estimada de 90 dias e que os detalhes técnicos serão apresentados nos canais oficiais do município.
Fiscalização não é execução: o papel pedagógico do vereador
Ao longo da conversa, Jamir Calili insiste em diferenciar atribuições do Legislativo e do Executivo.
“Muita gente ainda acredita que o vereador faz obra, que o vereador executa serviço. Não é assim. Quem executa é o Executivo. O vereador fiscaliza, propõe, cobra e orienta.”
Ele relata que parte significativa do trabalho do gabinete envolve esclarecer procedimentos institucionais à população.
“Quando um pai me procura porque o filho precisa de tratamento específico, eu não posso prometer milagre.
Eu preciso orientar sobre exames, documentação, fluxo do SUS, possibilidade de judicialização. Política pública não é improviso.”
Para ele, há um componente pedagógico na atividade parlamentar.
“Se a população não entende como o sistema funciona, ela vira refém de promessa fácil.”
Renovação da Câmara e a postura de oposição independente
A atual legislatura apresenta forte renovação, com diversos vereadores em primeiro mandato. Calili enxerga a mudança como oportunidade e desafio.
“A renovação pode ser positiva. Traz energia, traz vontade de fazer diferente. Mas também exige maturidade institucional. É preciso entender limites legais, regimento, orçamento.”
Ele também aborda sua própria transição política.
“Eu saí de uma condição de alinhamento com o Executivo para uma postura independente. Isso muda dinâmica, muda relação, muda expectativa. Exige reorganização interna e clareza de posicionamento.”
Segundo ele, a independência implica avaliar cada projeto individualmente.
“Ser independente é analisar proposta por proposta, sem alinhamento automático. O compromisso precisa ser com o interesse público.”
Ele reconhece que a mudança de posição trouxe desafios de comunicação.
“Talvez eu não tenha conseguido comunicar tudo como deveria. Quando você muda de lugar político, a leitura pública também muda.”
Comunicação política em tempos de superficialidade
Jamir Calili demonstra preocupação com o que considera uma simplificação excessiva do debate público.
“Hoje a política virou recorte de rede social. Só que política pública é processo. Tem início, meio e fim. Se a gente não explica isso, a população enxerga apenas fragmentos.”
Ele cita como exemplo um projeto que considera relevante do ponto de vista humanitário.
“A questão dos leitos diferenciados para mães que enfrentaram natimorto no hospital municipal é uma política pública de dignidade. Mas isso não viraliza. Não vira manchete fácil.”
Para ele, comunicar bem não significa simplificar em excesso.
“Se você simplifica demais, você distorce. Se você não comunica, você desaparece.”
A nota do mandato
Provocado a avaliar o próprio desempenho, o vereador responde de forma direta.
“Se eu olhar apenas para este momento, considerando a transição e os ajustes que precisei fazer, eu diria que a nota é 7 (sete).”
Ao considerar os dois mandatos, amplia a análise.
“Somando projetos apresentados, audiências públicas realizadas e atuação fiscalizatória, eu considero algo próximo de 8 (oito). Mas mandato nunca está pronto. Ele é construção permanente.”
Ele rejeita a ideia de atuação baseada em espetáculo.
“Não acredito em política performática. Acredito em política fundamentada.”
Professor universitário e a defesa da política baseada em conhecimento
Além da atuação parlamentar, Jamir Calili também é professor universitário na Universidade Federal de Juiz de Fora.
A experiência acadêmica, segundo ele, influencia diretamente sua forma de compreender políticas públicas.
“As universidades produzem conhecimento técnico, pesquisa, diagnóstico social.
Quando o poder público ignora isso, ele desperdiça inteligência.”
Para o vereador, a formulação de políticas precisa incorporar dados, estudos e planejamento.
“Política pública não pode ser construída apenas com base em percepção ou pressão momentânea. Ela precisa de método.”
Ele afirma que sua vivência acadêmica reforça sua postura legislativa.
“Eu prefiro ser cobrado por rigor técnico do que elogiado por discurso fácil.”
Pensar a cidade além do imediato
Na parte final da entrevista, Jamir Calili amplia o foco para desafios estruturais de Governador Valadares.
“Valadares precisa discutir poluição sonora e visual com seriedade. Isso impacta diretamente autistas, idosos, qualidade de vida urbana. Não é mero detalhe.”
Para ele, o mandato precisa ir além da reação imediata a crises pontuais.
“O papel do vereador não pode ser apenas responder ao problema do dia.
É preciso pensar planejamento, organização urbana e responsabilidade pública.”
Ao concluir, ele resume a linha que pretende manter no segundo mandato.
“Eu não entrei na política para fazer barulho. Entrei para fazer o que precisa ser feito, mesmo quando isso não rende aplauso.”
Revista JAMES
Fevereiro /2026





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