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Delegada Adeliana Xavier fala sobre medo, dependência e o difícil caminho de romper o ciclo da violência contra a mulher

  • há 16 horas
  • 5 min de leitura

No Dia Internacional da Mulher, a revista JAMES decidiu ouvir quem está na linha de frente de uma das realidades mais difíceis enfrentadas por mulheres no Brasil: a violência dentro de casa.



A delegada Adeliana, da Polícia Civil, convive diariamente com histórias que muitas vezes começam em silêncio e demoram anos para chegar até uma delegacia.

Para ela, um dos problemas mais graves está justamente na forma como pequenas agressões foram naturalizadas ao longo do tempo.

“A gente naturalizou tanto as pequenas violências que muitos homens não se enxergam como violentos.”

Segundo a delegada, atos que parecem banais dentro de muitas relações já são formas claras de violência.

“Tem homem que não consegue entender que um empurrão é violência. Que um xingamento é violência.”

Essas atitudes, repetidas e normalizadas, acabam criando um ambiente onde a violência cresce e se consolida.



A violência que muitas vezes ninguém vê


Nem sempre a violência começa com agressões físicas. Muitas vezes ela aparece de forma mais sutil.

“A mulher muitas vezes não percebe essa violência quando os sinais são mais silenciosos.”

Controle excessivo, humilhações, constrangimentos e desvalorização são alguns desses sinais.

Em muitos casos, a própria vítima tenta justificar o comportamento do agressor.

“Aquela coisa de falar assim: ‘ah, é o jeito dele’. Então ela vai tolerando.”

A delegada explica que existe também uma pressão social forte para manter relacionamentos, mesmo quando eles se tornam destrutivos.


“Quando a mulher se vê numa situação constrangedora, ela tenta manter aquela relação para que ela não se acabe.”

Essa pressão está ligada a um modelo tradicional de família que ainda pesa sobre muitas mulheres.

“A sociedade cobra que a gente seja uma boa esposa, uma boa companheira.”



A dúvida que atravessa muitas mulheres


Adeliana fala sobre essa realidade também a partir da própria experiência.

“Eu passei por dois casamentos. Antes de me separar eu ficava pensando:

o que os outros vão pensar? Será que eu vou dar conta de criar meus filhos sozinha?”

Essa dúvida aparece com frequência nos relatos que chegam à delegacia.

Muitas mulheres sabem que estão sendo violentadas, mas hesitam em romper a relação.

“Todas as mulheres sabem quando estão sendo violentadas.

A gente sente que aquela atitude não é decente, que aquilo incomoda.”

Mesmo assim, muitas acabam suportando a situação.

“A gente vai colocando as violências debaixo do tapete.”



A violência atravessa todas as classes


Ao longo dos anos de trabalho, a delegada chegou a uma conclusão clara.

“Eu ouso afirmar que todas nós já sofremos algum tipo de violência dentro da nossa casa.”

Os números nacionais confirmam a gravidade da situação.

“As maiores vítimas de violência doméstica somos nós, mulheres.”

Alguns grupos aparecem com maior frequência nas estatísticas.

“Se você pegar os dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, vai ver que são as mulheres pretas que moram nas comunidades.”


Mas ela faz um alerta importante.

“Isso não quer dizer que nos outros grupos a violência não aconteça.

Acontece em todas as classes.”



O momento em que a mulher decide denunciar


Uma das perguntas mais comuns sobre violência doméstica é por que tantas mulheres demoram para denunciar.

A delegada responde com uma comparação simples.

“Eu falo que nós somos como uma esponja. A gente vai absorvendo, absorvendo, absorvendo.”

Até que chega um limite.

“Quando satura, a gente denuncia.”

Antes disso, muitas questões pesam na decisão.

“A mulher pondera dependência emocional, dependência financeira, filhos.”


Quando existem filhos, a decisão se torna ainda mais complexa.

“Filho é uma âncora muito grande para a mulher conseguir sair de um relacionamento.”

Mesmo assim, quando o rompimento acontece, muitas conseguem seguir em frente.

“No momento que ela rompe esse ciclo e denuncia, dificilmente ela volta.”



A dependência que prende muitas mulheres


Um dos fatores mais difíceis dentro dos casos de violência doméstica é a dependência financeira.

Segundo Adeliana, muitas mulheres procuram a polícia com um pedido específico.

“Elas chamam a polícia porque querem que a agressão pare.”

Mas não necessariamente querem que o agressor seja preso.

“Elas querem que a gente dê um susto.”

Isso acontece porque, em muitos casos, o agressor é quem sustenta a casa.

“Ela precisa daquele agressor dentro de casa porque é ele que coloca o dinheiro.”


Essa realidade leva a situações dramáticas.

“Quantas vezes eu já ouvi mulheres pedindo para desistir da medida protetiva porque não tinham dinheiro para comprar o leite dos filhos.”



“Ninguém gosta de apanhar”


A delegada reage com firmeza a uma frase que ainda circula no imaginário social.

“Eu detesto quando dizem que mulher gosta de apanhar.”

Para ela, essa ideia ignora as dificuldades reais enfrentadas pelas vítimas.


O problema, segundo Adeliana, é que a violência doméstica envolve muitas camadas.

“Existem barreiras emocionais, sociais e financeiras.”

Sem apoio, muitas mulheres acabam voltando para relações violentas.



O que ainda precisa mudar


Para a delegada, combater a violência doméstica exige mais do que registrar denúncias.

É preciso criar condições para que as mulheres consigam reconstruir suas vidas.

“Depois que passa pelo processo no Judiciário, muitas vezes a mulher fica sozinha.”

Ela resume o desafio em uma pergunta direta.

“Ela pede medida protetiva. E depois?”

Sem apoio, o risco de retorno ao ciclo de violência aumenta.

“Como ela vai viver? Como vai sustentar os filhos?”


Por isso, ela defende políticas públicas que garantam suporte após a denúncia.

“Precisamos de políticas públicas para essas mulheres depois do processo judicial.”



No Dia Internacional da Mulher

Ao ouvir quem acompanha de perto a realidade da violência doméstica, a revista JAMES reforça uma certeza: o problema não começa apenas na agressão física. Ele nasce muitas vezes no silêncio, na naturalização e na falta de apoio.

E romper esse ciclo exige coragem individual, mas também responsabilidade coletiva.

Neste Dia Internacional da Mulher, a reflexão permanece aberta.

Porque denunciar é apenas o começo. Garantir que nenhuma mulher precise voltar para a violência ainda é um desafio que pertence a toda a sociedade.



Tecnologia como aliada na proteção das mulheres


Além do atendimento presencial nas delegacias, a delegada Adeliana também destaca o papel da tecnologia como ferramenta de proteção para mulheres em situação de risco.

Um dos recursos disponíveis é o aplicativo EVA, desenvolvido para ampliar os canais de apoio e facilitar o acesso das vítimas à rede de proteção.



“O aplicativo foi pensado justamente para facilitar o pedido de ajuda. Muitas vezes a mulher não consegue ir até uma delegacia naquele momento, mas ela consegue acessar o celular.”

O aplicativo permite que mulheres em situação de violência tenham acesso a orientações, canais de denúncia e informações sobre os serviços de proteção disponíveis.

Segundo a delegada, a tecnologia pode ser decisiva especialmente nos momentos em que a vítima precisa agir com rapidez.

“Quanto mais canais de acesso a mulher tiver, maior é a possibilidade de ela romper o ciclo de violência.”


A iniciativa integra as estratégias de enfrentamento à violência contra a mulher desenvolvidas pela Polícia Civil de Minas Gerais em parceria com outras instituições da rede de proteção.

Para Adeliana, ampliar essas ferramentas significa também ampliar as possibilidades de apoio.

“É importante que a mulher saiba que ela não está sozinha e que existem caminhos para buscar ajuda.”




Revista JAMES


Fotos: Gabriela Duarte

Governador Valadares

Março 2026


 
 
 

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