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Às vésperas da Expoleste, o presidente da Associação Comercial, Stefano Couri, fala sobre comércio, consumo, o crescimento dos bairros e os desafios econômicos de Governador Valadares

  • 19 de mai.
  • 5 min de leitura

A cidade mudou rápido nos últimos anos. E, segundo Stefano, muita gente ainda não percebeu o tamanho dessa transformação.



“Valadares não pode parar no tempo.”

A frase aparece logo no início da conversa e ajuda a resumir boa parte da visão de Stefano Couri sobre o momento atual da cidade.

Para ele, Governador Valadares atravessa uma mudança silenciosa, mas profunda.


O comportamento do consumidor mudou, os bairros cresceram, o comércio se descentralizou e a tecnologia alterou definitivamente a forma como as pessoas compram, trabalham e se relacionam com os serviços.


Natural de Governador Valadares, Stefano construiu praticamente toda a trajetória profissional na cidade. Formado em Administração pela antiga FGV, também acumulou experiências em conselhos, cooperativas e entidades representativas.


Foi presidente do Conselho Municipal de Turismo. É presidente do CONSEP-GV (Conselho Comunitário de Segurança Preventiva de Governador Valadares), delegado da ABAV (Associação Brasileira de Agências de Viagens), conselheiro de instituições financeiras e, recentemente, eleito presidente do Conselho Deliberativo do Filadélfia.


Mas sua história no turismo começou muito longe dos cargos institucionais.



30 anos no turismo


Em 1996, Stefano entrou na empresa onde trabalha até hoje como office boy. Pouco tempo depois, a antiga proprietária decidiu vender a agência por questões de saúde. A oportunidade surgiu de forma inesperada.

“A gente vendeu um carro para comprar a empresa.”

Desde então, nunca mais saiu do setor.


Ao completar quase três décadas no turismo, Stefano fala da profissão com a experiência de quem atravessou sucessivas crises globais.

Torres Gêmeas, gripe aviária, gripe suína, guerras, instabilidades econômicas e, mais recentemente, a pandemia.

“O turismo foi o primeiro a fechar e o último a abrir.”

Segundo ele, a Covid-19 mudou completamente a mentalidade empresarial dentro do setor turístico. Empresas precisaram reaprender processos, reorganizar custos e desenvolver novas formas de atendimento.

“O empresário precisou se reinventar.”


Ao comentar o colapso da 123 Milhas, Stefano afirma que o episódio abalou a confiança de muitos consumidores, mas também reforçou a importância do atendimento presencial.

“Quando acontece um problema, a pessoa procura alguém real.”

Ele acredita que, mesmo com o avanço acelerado da tecnologia, o contato humano continua sendo um diferencial importante.

“Vai na porta do Stefano. Vai reclamar com quem está ali.”



O consumidor mudou


Durante a entrevista, Stefano retorna várias vezes à ideia de transformação.

Para ele, Governador Valadares já não funciona da mesma forma que funcionava há alguns anos.

E parte dessa mudança está diretamente ligada ao novo comportamento do consumidor.

“O consumidor mudou completamente.”

Na avaliação dele, praticidade passou a definir o consumo moderno.

As pessoas querem resolver a própria rotina sem deslocamentos longos, trânsito ou perda de tempo.

“O consumidor não quer mais perder tempo.”

Esse movimento ajudou a fortalecer bairros que hoje funcionam quase como pequenos polos comerciais independentes. Stefano cita regiões como Vila Isa, Lagoa Santa, Santa Rita e Jardim Pérola como exemplos claros dessa descentralização.


“O centro não perde força. A cidade é que está crescendo.”

Segundo ele, o consumidor já encontra supermercados, farmácias, academias, bancos e serviços próximos de casa, reduzindo a dependência histórica da região central.

Ao mesmo tempo, Stefano acredita que o comércio tradicional precisará se adaptar rapidamente às novas formas de consumo.

“Tem comerciante que ainda espera o cliente sentado atrás do balcão. Isso vai acabar.”

Na visão dele, o e-commerce não é mais tendência futura.

É uma transformação já consolidada.

“Temos que nos adaptar.”



O peso dos aluguéis e os desafios do centro


Embora reconheça a força econômica do comércio valadarense, Stefano também aponta dificuldades que vêm impactando diretamente empresários da cidade.

Uma delas é o valor dos aluguéis comerciais.

Sem transformar a discussão em confronto direto com proprietários, ele afirma que Governador Valadares convive historicamente com valores elevados, muitas vezes comparáveis aos de grandes centros urbanos.

“Muita gente prefere deixar fechado do que baixar o aluguel.”

Segundo Stefano, isso contribui para a rotatividade comercial e para o aumento de lojas vazias em determinadas regiões.

Ainda assim, ele insiste numa ideia ao longo de toda a entrevista: Governador Valadares continua sendo uma cidade essencialmente comercial.

“O comércio e o serviço são a força da cidade.”

Hoje, segundo ele, comércio e prestação de serviços representam aproximadamente 80% do PIB municipal.

“A gente precisa entender a dor das pessoas”


Nos últimos anos, a Associação Comercial ampliou reuniões itinerantes em diferentes bairros da cidade para ouvir comerciantes e identificar dificuldades específicas de cada região.

Foi assim, por exemplo, que surgiram reclamações relacionadas ao fornecimento de energia elétrica em alguns polos comerciais.

“A gente precisa chegar no lugar para entender a dor das pessoas.”

A frase resume o modelo de gestão que Stefano afirma tentar implementar na entidade: menos distante da realidade cotidiana dos empresários.

“A associação existe para fortalecer quem empreende.”



A crise da mão de obra

Talvez nenhum tema desperte tanta preocupação quanto a dificuldade de contratação.

Sem hesitar, Stefano afirma que a maior fragilidade atual do comércio valadarense é a falta de qualificação profissional.

“Hoje você encontra vaga. O problema é encontrar gente preparada.”

Segundo ele, empresas enfrentam dificuldades para contratar profissionais preparados até mesmo para funções básicas de atendimento e gestão comercial.

Ao mesmo tempo em que o mercado exige mais preparo, menos pessoas procuram capacitação.

“Antigamente curso lotava. Hoje você abre turma e as pessoas não aparecem.”

É nesse cenário que a Associação Comercial vem tentando ampliar parcerias com o SEBRAE para oferecer cursos e treinamentos voltados às demandas do comércio local.



O aeroporto e a sensação de atraso


O tom da entrevista muda imediatamente quando o assunto chega ao aeroporto de Governador Valadares.

Stefano reconhece melhorias recentes na estrutura aeroportuária, especialmente após mudanças administrativas envolvendo a Infraero, mas afirma que a limitação de voos continua prejudicando diretamente o desenvolvimento econômico da cidade.

“Todo dia alguém reclama da tarifa.”

Segundo ele, trazer empresários, investidores, palestrantes e profissionais para Valadares se tornou uma operação cara e complicada.

“Às vezes você quer trazer alguém de São Paulo e simplesmente não consegue.”

Para Stefano, ampliar a concorrência aérea seria uma mudança importante para o município.

“O meu objetivo é trazer outra companhia aérea para cá.”



“A EXPOLESTE é feita para movimentar negócios.”


Considerada uma das maiores feiras empresariais do Leste de Minas.

Promovida pela Associação Comercial e Empresarial de Governador Valadares, a edição de 2026 será realizada entre os dias 20 e 24 de maio, no Centro de Feiras e Eventos da Univale, reunindo mais de 150 empresas expositoras e expectativa de público superior a 30 mil visitantes ao longo da programação.


Em 2025, a feira movimentou cerca de R$ 58 milhões em negócios. Para este ano, a expectativa da organização é ultrapassar os R$ 60 milhões em negociações.


Para Stefano Couri, a EXPOLESTE se consolidou como um espaço estratégico para conexões comerciais, circulação de empresas, fortalecimento de marcas e geração de oportunidades.


Ao longo da entrevista, Stefano defende que Governador Valadares continua tendo no comércio e na prestação de serviços sua principal força econômica.

E, na visão dele, eventos como a EXPOLESTE ajudam a reforçar justamente essa vocação.


Uma cidade em transformação, com novos polos comerciais surgindo nos bairros, mudanças no comportamento do consumidor, avanço do comércio digital e desafios estruturais que exigem adaptação constante de empresários e instituições.


É nesse cenário que a feira volta a ocupar o calendário econômico regional como um dos principais pontos de encontro entre empresas, investidores, consumidores e profissionais de diferentes setores.


“A cidade não pode parar no tempo.”

E talvez a frase que melhor resuma toda a entrevista seja justamente essa.

Uma cidade onde os bairros cresceram, o consumo se transformou e o comércio precisou encontrar novas formas de funcionar.


 



Revista JAMES


Foto: Ramalho Dias

Governador Valadares

Maio 2026



 
 
 

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